Síntese do capitulo 04 do Livro "Ética, Conceitos-chave em Filosofia", de Dwight Furrow, a ser apresentado na cadeira de Ética Geral I da Faculdade de Filosofia do IDC.
http://prezi.com/jk2mqpvgpsk4/a-obrigacao-segundo-dwight-furrow/
segunda-feira, 6 de maio de 2013
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Algumas proposições sobre proposições
Na proposição manifesta-se a transcendência da linguagem humana, pois é nesse nível que ela ultrapassa a simples perspectiva de pura significação para tentar atingir as coisas em si mesmas... A essência da proposição não está em seus termos (que são apenas símbolos), mas no próprio "ato da composição", que seria um "estado de alma"
(Oliveira, Manfredo de - A reviravolta linguístico pragmática na filosofia contemporânea, 3 ed)
Uma proposição, como um quadro, pode dizer um estado das coisas. É um “quadro” das coisas. Supõe-se que a proposição (o quadro) tenha uma estrutura comum com o que representa. Isso não diferiria da proposta de Platão no Crátilo, de que existiria uma unidade indiferenciada entre o "logos" e o "on". Na função designativa das palavras encontra-se implícito que a estrutura da proposição tenha algo em comum com o que ele representa. Portanto existe Platão em Wittgenstein, com a diferença de que Wittgenstein diz que são os fatos e não as coisas que são "afiguradas". E por ser fato, implica uma relação entre as coisas numa forma logicamente arranjada, refletida essa relação lógica no fato e na proposição.
A meu ver, Wittgenstein apresenta-se como "outra pessoa" na sua segunda fase. Wittgenstein abandonou uma especie de núcleo duro herdado/baseado em Frege, Whitehead Carnap e Russel, enfim, o círculo de Viena. Wittgenstein abandonou a questão das proposições, para se tornar mais fluído ao propor os jogos de linguagem, interessando por formas de expressões linguísticas não-proposicionais cujo sentido seria a utilidade (uso) dentro de um contexto social.
Assim existem duas questões a serem abordadas pela filosofia da linguagem: a questão das asserções proposicionais e a questão das asserções não-proposicionais. Quanto às proposicionais parece que Witigenstein esgotou o tema no "tractatus" ao afirmar que "sobre o que não se pode falar, deve-se calar"; logo depois, nas "investigações filosóficas" dedicou-se às questões não-proposicionais, investingando a linguagem, como se o seu sentido fosse o uso, tendo um enfoque mais social no uso da linguagem, não mais focado na questão "quase-metafísica" das proposições.
Assim existem duas questões a serem abordadas pela filosofia da linguagem: a questão das asserções proposicionais e a questão das asserções não-proposicionais. Quanto às proposicionais parece que Witigenstein esgotou o tema no "tractatus" ao afirmar que "sobre o que não se pode falar, deve-se calar"; logo depois, nas "investigações filosóficas" dedicou-se às questões não-proposicionais, investingando a linguagem, como se o seu sentido fosse o uso, tendo um enfoque mais social no uso da linguagem, não mais focado na questão "quase-metafísica" das proposições.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Mais um pouco de lógica
$x(Gx&~Fx),@x(Gx->Hx)|-$x(Hx&~Fx)
|
1 (1)
$x(Gx&~Fx) A
|
2 (2)
@x(Gx->Hx) A
|
2 (3)
Ga->Ha 2@E
|
4 (4)
Ga&~Fa A
|
4 (5)
Ga 4&E
|
2,4 (6)
Ha 3,5->E
|
4 (7)
~Fa 4&E
|
2,4 (8)
Ha&~Fa 6,7&I
|
2,4 (9)
$x(Hx&~Fx) 8$I
|
1,2 (10)
$x(Hx&~Fx) 1,9$E(4)
|
$x(Gx&Fx),@x(Gx->~Hx)|-$x~Hx
|
1 (1)
$x(Gx&Fx) A
|
2 (2)
@x(Gx->~Hx) A
|
2 (3)
Ga->~Ha 2@E
|
4 (4)
Ga&Fa A
|
4 (5)
Ga 4&E
|
2,4 (6)
~Ha 3,5->E
|
2,4 (7)
$x~Hx 6$I
|
1,2 (8)
$x~Hx 1,7$E(4)
|
@x(Gx->~Fx),@x(~Fx->~Hx)|-@x(Gx->~Hx)
|
1 (1)
@x(Gx->~Fx) A
|
2 (2)
@x(~Fx->~Hx) A
|
1 (3)
Ga->~Fa 1@E
|
2 (4)
~Fa->~Ha 2@E
|
1,2 (5)
Ga->~Ha 3,4HS
|
1,2 (6)
@x(Gx->~Hx) 5@I
|
$x(Fx&Ga),@x(Fx->Hx)|-Ga&$x(Fx&Hx)
|
1 (1)
$x(Fx&Ga) A
|
2 (2)
@x(Fx->Hx) A
|
2 (3)
Fb->Hb 2@E
|
4 (4)
Fb&Ga A
|
4 (5)
Fb 4&E
|
4 (6)
Ga 4&E
|
2,4 (7)
Hb 3,5->E
|
2,4 (8)
Fb&Hb
5,7&I
|
2,4 (9)
$x(Fx&Hx) 8$I
|
2,4 (10)
Ga&$x(Fx&Hx)
6,9&I
|
1,2 (11)
Ga&$x(Fx&Hx) 1,10$E(4)
|
@ = ∀ $ = ∃
http://logic.tamu.edu/daemon.html
http://logic.tamu.edu/daemon.html
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Filosofia e metáfora do computador
A filosofia dá um "defrag", incrementa a memória RAM, e substitui o disco rígido.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Pré conceitos e nomes
Platão, no Crátilo[1],
ao referir-se aos nomes, indica que o primeiro nome deveria ser dado pelo
filósofo, legislador[2],
que teria certa capacidade inata para conceitualizações. Observa-se que a
nomeação subsequente dada a outros objetos semelhantes ao primeiro objeto será
uma cópia da nomeação original - em meio a uma porção de objetos semelhantes já nomeados
igualmente, qualquer novo objeto apresentado aos sentidos será comparado com
aqueles outros objetos apresentados anteriormente, nomeados em cadeia desde
o elo original nomeado pelo legislador. Sempre é dado um nome ou conceito
semelhante ao de objetos semelhantes. A necessidade da compreensão
da relação entre os objetos não é só necessária para o entendimento dos fatos,
mas também para a nomeação e formação de conceitos.
Mas
existe outro tipo de relação entre objetos, não do tipo de encadeamentos
lógicos que desembocam nos fatos, e sim como processo comparativo entre
semelhanças e dessemelhanças, para a difusão de nomes e conceitos primitivos. Os
nomes e conceitos pré-estabelecidos dos objetos difundem-se por comparação para
designar novos objetos que entram no campo da percepção. Essa formação de nomes e conceitos por comparação através dos pré nomes e conceitos pode levar a formação de pré-conceitos falhos, via raciocínios indutivos reducionistas grosseiros.
[1] PLATÃO. Crátilo.
Lisboa: Instituto Piaget, 2001.
[2]Luego no es árbitro todo el mundo, mi querido Hermógenes, de
imponer nombres, sino que lo es sólo el verdadero obrero de nombres; y éste es,
al parecer, el legislador, que es de todos los artesanos el que más escasea
entre los hombres (PLATÓN, Crátilo, Edición electrónica de www.philosophia.cl / Escuela de
Filosofía Universidad ARCIS, p 8)
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Sobre "Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade"
No
texto Sobre um suposto direito de mentir
por amor à humanidade[1],
Immanuel Kant[2]
diverge
de Benjamim Constant. Cada qual defende uma forma de agir, através da qual os
indivíduos praticariam ações moralmente boas. Kant acredita que os indivíduos
nunca teriam direito de mentir, Constant, por outro lado, defende que
deveríamos dizer a verdade somente quando os ouvintes tivessem direito a ela.
Para
Kant, o erro fundamental de Constant estaria em atribuir ao indivíduo um suposto
direito à verdade. Kant discorre que “importa, em primeiro lugar, observar que
a expressão ´ter direito à verdade´ é uma palavra sem sentido” (KANT,1797, p.
4). Segundo Kant, a verdade não seria algo subjetivo, que poderia pertencer ou
não a determinado indivíduo. Para Kant, o indivíduo teria direito apenas à sua
própria veracidade.
Kant
segue argumentando que nem mesmo uma mentira bem intencionada deveria ser
proferida. Segundo Kant, “a veracidade nas declarações, que não se pode evitar,
é o dever formal do homem em relação seja a quem for, por maior que seja a
desvantagem que daí decorre para ele ou para outrem” (KANT,1797,
p. 4).
Conforme Kant, quem mente, mesmo com boa intenção, também seria sempre
responsável pelos fatos que, da mentira, depois decorreriam.
Quem, pois, mente, por mais bondosa que
possa ser a sua disposição,deve responder pelas consequências, mesmo perante um
tribunal civil, e por ela se penitenciar, por mais imprevistas que essas
consequências possam também ser; porque a veracidade é um dever que tem de se
considerar como a base de todos os deveres a fundar num contrato e cuja lei,
quando se lhe permite a mínima excepção, se toma vacilante e inútil. ("Sobre
um suposto direito de mentir por amor à humanidade" in "A paz perpétua
e outros opúsculos", Trad. Artur
Morão, ed. Edições 70, Lisboa-Portugal: 1995)
Para
Kant, todo ser racional existiria como um fim em si mesmo, e não deveria ser
tratado como um meio. Segundo Kant, o indivíduo que mente trataria as pessoas
como meio, e não como fim. Para Kant, o mentiroso atentaria não apenas contra
um indivíduo, mas contra a humanidade inteira.
Por conseguinte, a mentira
define-se como uma declaração intencionalmente não verdadeira feita a outro
homem, e não é preciso acrescentar que ela deve prejudicar outrem, como exigem
os juristas para a sua definição [mendacium est falsiloquium in praejudicium alterius].
Efetivamente ela, ao inutilizar a fonte do direito, prejudica sempre outrem,
mesmo se não é um homem determinado, mas a humanidade em geral. (_____. Sobre um suposto direito de mentir por amor à
humanidade in A paz perpétua e outros opúsculos,
Trad. Artur Morão, ed. Edições 70, Lisboa-Portugal: 1995)
Kant
leva em conta no seu artigo a questão da mentira, mas não aprofunda o tema da
promessa. Prometer não é mentir porque parte de uma intenção “a priori”,
sujeita ou não à concretização. Caso uma promessa não venha a se cumprir,
dependendo do contexto, não significa que houve mentira. Assim Kant, no texto Sobre um suposto direito de mentir por amor
à humanidade, acaba deixando entreaberta uma porta aos sofistas.
[1] _____.
Sobre um suposto direito de mentir
por amor à humanidade in A paz
perpétua e outros opúsculos, Trad. Artur Morão, ed. Edições 70,
Lisboa-Portugal: 1995
[2] Immanuel Kant foi um filósofo prussiano
considerado o último grande filósofo dos princípios da era moderna.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Sobre o Discurso do método
No início do Discurso do método[1], René Descartes[2]
disserta sobre a distribuição universal do bom senso[3], que levaria a uma certa uniformidade na
capacidade de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso. Descartes faz
um comentário irônico sobre a questão dos indivíduos estarem insatisfeitos com
tudo exceto com seu bom senso, e que não desejariam ter mais bom senso do que
já têm. Face à uniformidade do bom senso, a diversidade das opiniões decorreria
do fato de a condução do pensamento ser feita por diversas vias, sem considerar
as mesmas variáveis.
Descartes afirma a seguir que para se chegar ao
conhecimento da verdade não bastaria ter o espírito virtuoso, mas que seria
necessário antes aplicar esse espírito de maneira correta, e segue explicando
que apenas as boas intenções advindas do bom senso não seriam suficientes para
alguém seguir no caminho do conhecimento pelas vias do pensamento. Para
Descartes, seria mais proveitoso buscar a verdade utilizando-se de métodos
certos e seguros, mesmo que esse seja um processo mais demorado, do que
utilizar-se de métodos rápidos e obscuros que podem conduzir ao erro.
Descartes continua o discurso revelando o seu
racionalismo quando exalta as obras e leis humanas elaboradas com o uso da
razão, planejadas, a priori, especialmente quando criadas pela mente de um só homem.
Por outro lado, Descartes critica o empirismo ao afirmar que frequentemente não
há perfeição nas “obras compostas de várias peças, e feitas pelas mãos de
vários mestres” (DESCARTES, 1973, p. 15), as obras e leis compostas seriam mal
feitas quando elaboradas por muitos, conforme as necessidades dos tempos, e por
fim resultariam caóticas.
Assim, imaginei que os povos que, tendo sido
outrora semi-selvagens e tendo-se civilizado apenas, pouco a pouco, foram
fazendo suas leis somente à medida que a incomodidade dos crimes e das querelas
a isso os forçou não poderiam ser tão bem policiados como aqueles que, desde o
momento em que se reuniram, observaram as constituições de algum prudente
legislador. Como é muito certo que o estado da verdadeira religião, cujos
mandamentos Deus fez sozinho, deve ser incomparavelmente mais bem regulamentado
do que todos os outros. (DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Abril
Cultura, 1973. Col. Os Pensadores, vol. XV, p.16)
O racionalismo de Descartes o leva a uma crítica
radical em relação ao mundo e a tudo o que do mundo faz parte. Desta forma, por
meio da dúvida metódica oriunda de um ceticismo controlado, Descartes afasta-se
de tudo aquilo que até então fora estabelecido como verdadeiro e dado como
certo. Partindo quase do nada, certo de
que o único pressuposto da sua existência é o pensar, Descartes
estabelece um método universal audacioso inspirado no rigor da matemática -
pela qual tem grande apreço - e que consiste de quatro preceitos.
O primeiro preceito seria o da evidência como
critério de verdade - Descartes inclui em seus juízos somente aquilo que é tão claro
a ponto de não poder gerar a menor dúvida. O segundo preceito seria a divisão
do todo em partes, para então depois proceder-se um exame em cada uma das
partes, ou seja, a análise. O terceiro preceito diz respeito à síntese, na qual
se parte do mais simples em direção ao mais composto. Por fim, o quarto princípio
cartesiano seria o da comprovação, que se faria por meio de enumerações
completas e revisões gerais.
Descartes justifica o descarte dos sentidos como ferramenta de
apreensão da verdade, através da metáfora de que o gênero humano poderia estar
sendo continuamente iludido por um ente poderoso e enganador denominado “gênio
maligno”. Conforme a metáfora de Descartes, esse “gênio maligno” desvirtuaria a
realidade, e estaria sempre se empenhando para criar a ilusão dos sentidos.
Partindo de uma extensão do solipsismo[4], e baseado no método intuitivo[5], Descartes concluirá que a única certeza indubitável de que tem é
a de que duvida, e por conseguinte, a de que pensa.
Descartes sempre utilizará como base o método discursivo de
raciocínio intuitivo evidente, método estritamente racional que teria o rigor
da matemática. Através desse tipo de raciocínio, Descartes percebe que o ser
sabe de forma clara e distinta que, para duvidar e pensar tem que existir.
Descartes concluirá dessa forma, que o ser é indissociável do pensar, e que a
causa do ser é o pensar. “Penso, logo existo” (DESCARTES, 1973, p. 38).
Pelo método intuitivo utilizado
por Descartes, é possível obter-se conhecimentos tais como “eu duvido”, “eu
existo”, “eu penso”, ou de que um triângulo é formado por três linhas. Mas esse
tipo de método de raciocínio deixa margens a dúvidas. Desde Platão[6], no Teeteto[7], quando Sócrates falava a Teeteto “Mas
o que te perguntei, Teeteto, não foi isso: do que é que há conhecimento, nem
quantos conhecimentos particulares pode haver; minha pergunta não visava a enumerá-los
um por um; o que desejo saber é o que seja o conhecimento em si mesmo. Será que
não me exprimo bem?” (PLATÃO, p.6), ainda hoje não se sabe como dar motivos concretos a um raciocínio
intuitivo, nem como deve ser expresso esse intuir interior. Utilizando-se na
sequência do intuir um raciocínio dedutivo, é possível analisar a conclusão de
Descartes desdobrando o argumento “penso, logo existo” em duas premissas.
Podemos considerar que a premissa maior é "tudo o que pensa existe",
e a premissa menor é "eu penso". A conclusão seria "eu
existo". Mas Descartes não poderá definir exatamente o que é
"pensar", e muito menos o que seja o “eu”, o "ser" e o
“existir”, e a despeito da sombra da hipótese do “gênio maligno”, ele segue
intuindo.
Descartes
acredita que o raciocínio intuitivo evidente seria capaz de produzir
conhecimentos verdadeiros, pois através dele, ele teria alcançado a verdade inquestionável
de que pensa, logo existe. Mas apesar da razão intuitiva ter levado ao desvelo
de uma verdade provisória, ainda não está excluída a possibilidade da
existência do “gênio maligno”, o deus enganador. Descartes então considera
fundamental demonstrar a existência de Deus, um Deus bondoso, que traga
segurança, e seja a garantida da manutenção das verdades alcançadas pela razão.
Para isso Descartes recorre mais uma vez ao raciocínio intuitivo, ao bom senso,
e também a Platão.
Uma
das ideias inatas[8]
que teríamos em mente é a ideia de perfeição, e é esta ideia que Descartes
utilizará como ponto de partida para as provas da existência de Deus. Para
Descartes as ideias inatas eram fundamentalmente os conceitos matemáticos e
também a própria ideia da perfeição. A ideia de perfeição só poderia ter sido
criada por algo perfeito, Deus. Para Descartes, sendo Deus perfeito, teria que
existir, pois não seria possível conceber Deus perfeito apenas como um ser
abstrato - a completude da sua perfeição seria a sua concretização. Alem disso,
Descartes intui que o ser pensante não poderia ter sido o criador de si
próprio, pois se tivesse sido criador de si próprio, ter-se-ia criado a ele
mesmo perfeito, imune e livre dos engodos do “gênio maligno”. Para Descartes,
somente a perfeição divina poderia ter sido a criadora do ser imperfeito e
finito que é o homem, e também de toda a realidade que o circunda.
Deus,
sendo perfeito, não poderia ser enganador. Então assim estaria por fim refutada
a hipótese do “gênio maligno” e abandonado o ceticismo provisório. Descartado o
solipsismo, estaria também garantida a adequação entre o pensamento intuitivo
evidente e a realidade. Se Deus não é enganador, então as nossas evidências
racionais seriam absolutamente verdadeiras.
As
considerações acima são de importância relevante para compreendermos o
pensamento cartesiano desde as primeiras páginas do Discurso do método. Basta
uma leitura inicial na obra para se perceber que a escolástica[9]
nunca deixou de estar presente no espírito de Descartes, pois essa é a
filosofia que lhe foi ensinada e que, mesmo parcialmente imerso nela, ele sonhava
em substituir pela sua. Apesar de Descartes ter inaugurado uma reflexão
independente da fé, o seu raciocínio intuitivo aproxima-se bastante daquela. O
período do Renascimento[10],
que ressuscitou Platão, e que foi um foco de ceticismo e de pensamento
autônomo, também influenciou Descartes, bem como o medo de ser desaprovado pela
Igreja e de ter um destino semelhante ao de Galileu Galilei[11].
O
Discurso do método não foi a primeira obra escrita por Descartes, apesar de ser
a sua primeira obra publicada. O
início dessa primeira obra publicada por Descartes é quase uma autobiografia,
com reflexos do seu tempo. No Discurso do método Descartes não teve intenção de
explicitar o método, e sim de mostrar como havia chegado até ele. “Portanto,
meu propósito não é ensinar aqui o método que cada qual deve seguir para bem
conduzir sua razão, mas somente mostrar de que modo me esforcei por conduzir a
minha” (DESCARTES, 1973, p. 7). Em todas as suas obras
Descartes procurou aplicar os quatro preceitos do método, evitando
os métodos empíricos e experimentais. Mas os quatro preceitos do método não
evitam que Descartes parta de pressupostos intuitivos para chegar a conclusões
metafísicas próximas aos assuntos da teologia, a qual considerava refratária a
qualquer tipo de abordagem racional.
Eu
venerava a nossa teologia e pretendia, como qualquer um, ganhar o céu; porém, tendo
aprendido, como algo muito certo, que o seu caminho não está menos franqueado aos
mais ignorantes do que aos mais sábios e que as verdades reveladas que para lá
conduzem estão além de nossa inteligência, não me atreveria a submetê-las à
debilidade de meus raciocínios, e pensava que, para empreender sua análise e
obter êxito, era preciso receber alguma extraordinária assistência do céu e ser
mais do que homem. (DESCARTES,
René. Discurso do método. São Paulo: Abril Cultura, 1973. Col. Os Pensadores,
vol. XV, p.11)
Estas palavras lembram, de alguma forma, a célebre
citação de Ludwig Wittgenstein[12]
no Tractatus Logico-Philosophicus[13]: "Sobre aquilo de que não se
pode falar, deve-se calar" (WITTGENSTEIN, 1968, p.129). De forma
semelhante a Descartes, Wittgenstein
decreta que as proposições sobre o místico, sobre Deus, sobre a ética, sobre a
estética e sobre assuntos teológicos, são todas absurdas do ponto de vista dos
requisitos lógicos para a construção de proposições significativas. Wittgentein
não está descartando os objetos dessas proposições, ao contrário, está
sugerindo que a ética, a estética e a dimensão mística e teológica são
transcendentes, não estão ao alcance da linguagem humana. Seria então
necessário ser mais do que homem para ter verdadeiro conhecimento sobre esses
assuntos devido à sua inefabilidade. Segundo Wittgenstein, a melhor atitude em
relação ao transcendente seria a de manter um respeitoso silêncio.
Apesar da dificuldade de aproximar-se de
temas transcendentes apontada por Descartes e Wittgenstein, os filósofos do
presente e do futuro não deverão esmorecer no trabalho de investigação e
aprofundamento de temas ontológicos, metafísicos e mesmo teológicos. Novos paradigmas[14] deverão unir empiristas e racionalistas,
analíticos e continentais. Outros métodos
e preceitos poderão despontar para além das sempre conhecidas formas de
raciocinar. Formas inéditas de pensar abarcarão a complexidade com o auxílio de
computadores e mentes brilhantes sobre os ombros dos velhos gigantes.
[1] DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Abril Cultura, 1973.
Col. Os Pensadores, vol. XV.
[2] René Descartes (1596-1650) foi um filósofo francês que
escreveu o Discurso do método, um tratado matemático e filosófico publicado na França 1637. Descartes, por vezes chamado
de “o fundador da filosofia moderna”, é considerado um dos pensadores mais
influentes da história.
[4] Solipsismo é a idéia de que a única realidade é o
próprio eu, e que tudo o mais não tem existência em si própria, ou não se pode
comprovar tal existência. A ilusão do mundo então, incluindo as outras pessoas,
seria uma projeção da mente. A única visão de realidade absolutamente
irrefutável é a solipsista.
[5]
Método intuitivo, amplamente utilizado por René Descartes e Henry Bergson,
ocorre quando a apreensão
do objeto se efetua de modo direto e imediato. Desta maneira, é aquele método
que consiste numa operação total, única e indivisa do espírito. Que se
projeta sobre o objeto e o domina
abrangendo, com uma só visão, sem que nada se interponha entre o sujeito que
conhece e o objeto que se procura conhecer. Filósofos analíticos criticam esse
método julgarem que ele não possui nenhum valor de verdade.
[6]
Platão (427 a.C.- 347 a.C.)
foi um filósofo grego da antiguidade, considerado um dos principais pensadores
gregos. Tornou-se discípulo do filósofo Sócrates. Escreveu inúmeros diálogos e
cartas, onde a figura principal é Sócrates. Sua filosofia é baseada na teoria
de que o mundo que percebemos com nossos sentidos é um mundo ilusório, confuso.
O mundo espiritual é mais elevado, eterno, onde está o que existe
verdadeiramente, as ideias, que só a razão pode conhecer.
[7] _____.
Teeteto e Crátilo. Trad. Carlos
Alberto Nunes. Belém: Ed. UFPA, 2001.
[8]
Ideias
inatas seriam ideias que, nascidas conosco, são como que a marca do criador no
ser criado à sua imagem e semelhança. Estas ideias inatas, claras e
distintas, não seriam inventadas por nós, mas produzidas pelo entendimento sem
recurso à experiência. Elas subsistiriam no nosso ser, em algum lugar profundo
da nossa mente, e somos nós que teríamos liberdade de as pensar ou não.
Representariam as essências verdadeiras, imutáveis e eternas, razão pela qual
serviriam de fundamento a todo o saber científico.
[9]
A escolástica representa o último período da história do
pensamento cristão, que vai do início do século IX até o fim do século XV. Este
período do pensamento cristão é denominado escolástica, porque era a filosofia
ensinada nas escolas da época por mestres chamados escolásticos. Diversamente
da patrística, cujo interesse é acima de tudo religioso e cuja glória é a
elaboração da teologia dogmática católica, o interesse da escolástica é, acima
de tudo, especulativo, e a sua glória é a elaboração da filosofia cristã. Tal
elaboração, todavia, será plenamente racional, consciente e crítica, apenas em
Tomás de Aquino, que levou a escolástica ao seu apogeu. Até o Aquinate
sobrevivem o pensamento e a tendência platônico-agostiniana, características da
patrística, em que era impossível uma filosofia verdadeira e própria por falta
de distinção entre natural e sobrenatural, razão e fé, filosofia e teologia.
[10] Renascimento, período da
história européia caracterizado por um renovado interesse pelo passado
greco-romano clássico, especialmente pela sua arte. O Renascimento começou na
Itália, no século XIV, e difundiu-se por toda a Europa, durante os séculos XV e
XVI.
[11] Galileu Galilei (1564-1642),
cientista italiano, em uma de sua obra, Diálogos sobre os dois grandes sistemas
do mundo, ele afirma que a terra, assim como os demais plantas movem-se em
torno do sol. A publicação dessa obra foi condenada pela Igreja. Em 19633 a
Santa Inquisição prendeu e julgou Galilei por heresia.
[12]
Ludwig Joseph Johann Wittgenstein (Viena, 26 de Abril de 1889 — Cambridge, 29 de Abril de 1951), filósofo austríaco, naturalizado britânico, foi um dos
principais atores da virada
linguística na filosofia do século XX. Suas principais
contribuições foram feitas nos campos da lógica, filosofia da linguagem, filosofia da matemática e filosofia
da mente.
[13]
WITTGENSTEIN, Ludwig,
Tractadus Logico-Philosophicus, São Paulo: Edusp, 2001.
[14]
Paradigma (do grego parádeigma) literalmente modelo, é a representação de
um padrão a ser seguido. É um pressuposto filosófico, matriz, ou seja, uma teoria, um conhecimento que
origina o estudo de um campo científico; uma realização
científica com métodos e valores que são concebidos como modelo; uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas.
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